O último Música em Debate do CFCL-SINESPde 2020, realizado no dia 4 de dezembro, reuniu cerca de vinte filiadas para uma tarde de reflexões, lembranças e, sobretudo, boa música. A proposta foi justamente desmistificar o conceito de que não há música boa como "antigamente" e mostrar que, procurando e fuçando, tem muita coisa boa (sim!) sendo feita nesse momento no Brasil.

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"Será que só tem música boa no passado? O que está sendo produzido no Brasil que é bom? Tentamos balancear estilos e trazer um pouco da diversidade do país em um panorama. Foram três meses de investigação ouvindo bastante coisa para encontrar Música Popular Brasileira de qualidade feita no século 21", professor Marcos Maurício Alves. A ideia foi trazer trabalhos relativamente novos de bandas e artistas desconhecidos. "Tem música boa em todas as épocas", ressalta.


Assim, o professor Marcos Maurício Alves e Jean Siqueira comandaram o riquíssimo debate. Além da apresentação das músicas, duas delas tiveram suas letras em análise, o que rendeu amplas discussões - uma delas por mais de uma hora. "Quase virou um debate temático", brincou o professor Jean. Foi justamente a letra da primeira canção apresentada, "Triste, louca ou má", da banda Francisco El Hombre. A obra inspirou debates acalorados sobre o papel da mulher no mundo contemporâneo.


"Tem a questão de falar do empoderamento da mulher. Essa música coloca outra faceta desse conceito, dessa mulher que toma decisões e tem a coragem de assumir as consequências de suas decisões. Realmente, gostei muito dessa música porque mostra bem isso", Beth Castellão

 "A mulher também perpetua o machismo porque ela é encarregada de passar as tradições", Marcia Olivan

"As amarras às vezes são da própria mulher. Tem que ser uma nova mulher, de forma nova, de forma pronta a conquistas. Ela precisa ser livre consigo mesma para não se permitir esse nível de opressão", Heidi Cavenaghi

"A liberdade tem que ser interna, a pessoa tem que ser livre, não deixar que o homem monte", Rosangela Borges

"Essa música é muito incrível, mexeu comigo, parece um contraponto à famosa frase 'Bela, recatada e do lar'", Angela Figueiredo, "Acho polêmica a discussão. Cuidado para não culpabilizar a mulher. Caberia encontros (formação) somente para este tema"

"Da mesma forma que temos o racismo estrutural, o machismo também é uma questão estrutural na nossa sociedade. A gente não percebe que ele existe, então é difícil se libertar", Maria Cinto do Prado

"É um problema social que afeta a vida pessoal. É um desafio para nós essa superação. Todas as conquistas das mulheres foram com muita luta, não foi uma concessão dos homens", Sonia Sampaio

"Essa desconstrução machista deve ser iniciada desde a Educação infantil", Andreia Facco


A segunda música apresentada foi uma composição do músico de rap Emicida e do duo de cantoras Ibeyi, chamada "Hacia el Amor". O que mais chama a atenção desse clipe é a forte presença da cultura hip hop, nos grafites, danças e visual. Jean ressalta o fato de não haver objetificação das mulheres que estão no vídeo. "Isso tem muito a ver com a proposta da música", aponta.

Há uma forte presença da música e da dança contemporânea. "O clipe traz todos esses movimentos que estão despontando, que são novos, faz harmonia bonita com a dança, com o movimento, com o grafite, e com tudo de novo que vem sendo discutido no presente", observa Beth Castellão. "Gosto muito do Emicida e a identidade linguística dele é fortíssima e isso é uma provocação e aproxima as pessoas", reforça Angela Figueiredo.

A terceira música selecionada é de Mariana Aydar, chamada "Veia Nordestina". "É muito gostoso esse forró. Dá até para dar uma balançadinha. É levinho", comemora Maria Fátima Roque. "Gostei bastante, tem um ritmo interessante, até me lembrei de músicas mais antigas, como as da Nana Caymmi", disse Maria Cinto do Prado.

Uma jovem cantora chamada Luedji Luna chamou a atenção de todos pela qualidade do trabalho representado pela composição "Lençóis". "Tudo é pensado harmonicamente, música, letra e imagem", assinala o professor Marcos. Ele ressalta que o visual tem muito a ver com muitas músicas que são feitas atualmente.


"Não conhecia a cantora, nem a música, mas amei. Muito inspiradora", Neuza Maria de Carvalho

"Você vê o Emicida com essa visão de urbanidade e aí vem essa moça e mostra esse lugar onde ela vive de forma poética, como ela descreve esse amor, o céu, o mar, achei demais a leveza com que ela coloca as coisas!", Marta Held

"Ao contrário do Emicida, com aquela variedade de cores, esse é minimalista, tem uma espiritualidade, uma interiorização", Maria Cinto do Prado

"No começo achei repetitivo mas, quando veio o poema, completou!", Maria Fátima Roque


A música seguinte, da banda de rock Vespas Mandarinas, trouxe, em letra simples, uma homenagem ao vocalista da banda Cólera, na ocasião de seu falecimento, chamada "Amor em tempos de cólera".


"Essa música me lembrou a fase que eu ia com meu filho à galeria do Rock. Juntava seis, sete meninos, e cada um queria comprar uma coisa lá", Marta Held


O músico Criolo, também carinhosamente conhecido como professor Kleber quando dava aulas na rede pública de São Paulo, é filho de professora e de metalúrgico. Mesmo com o sucesso, nunca se desligou de suas raízes no bairro do Grajaú, extremo sul de São Paulo, local em que sua mãe, Dona Villany, mantém até hoje um café filosófico.

Com a pandemia, preocupado com as pessoas em situação de vulnerabilidade, chamou o músico Milton Nascimento para gravar sua música " Não existe amor em SP". O clipe foi feito em uma São Paulo vazia, já impacto do isolamento social provocado pela pandemia do novo coronavírus. A ideia era arrecadar 250 mil reais, acabaram angariando um milhão.


"A enfermeira veio aqui aferir minha pressão e disse: 'Eu conheço o Criolo'. Parou e ficou aqui assistindo o Música em Debate do CFCL-SINESP", Beth Castellão

"Não conhecia o Criolo e gostei muito, tanto da melodia quanto da letra, e junta ainda com o Milton, aí fica parecendo um hino", Lurdes Rocha

"É muito comovente", Maria Fátima Roque

"A filmagem é tão bem cuidada, de uma sensibilidade fora do normal, eu estou aqui pasma", Maria Cinto do Prado


O Teatro Mágico é uma trupe que tem característica circense mas que mistura vários gêneros musicais, de forma diversificada. Começaram a fazer sucesso nas redes sociais, no YouTube, formando público na internet muito antes de lançar um álbum, que nunca foi vendido e sim colocado de graça nas redes. A música apresentada foi "Pena", do DVD Segundo Ato.


"Quase que eu acabei batendo palma também, porque eu estava lá!", Maria Fátima Roque

"Eu estava me lembrando que nos tempos dos festivais muitos cantores tiveram a publicidade que não teriam se não fosse isso", Lurdes Rocha


Mas o que se ouve hoje no Brasil? Será que essa produção de qualidade chega a todos? Veja as músicas mais ouvidas no Brasil hoje, propuseram os professores. 

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"Em qualquer estilo tem coisa boa e coisa ruim. O sertanejo ficou na mesma batida, na mesma entonação musical, com letra relacionada a sofrência, está muito empobrecido. O samba também descambou, assim como o pagode", Norma Lúcia Andrade dos Santos, diretora do SINESP

"Outro dia fui ao parque Ibirapuera e vi um grupinho ouvindo música e parecia porta de banheiro! A letra era tudo aquilo que se lê em porta de banheiro público", Rosangela Borges

"Meu filho sempre me manda músicas e insiste para eu ouvir. Realmente a gente tem que ir atrás de ouvir o que está sendo feito atualmente", Rosa Oliveira


O encontro terminou com uma proposta nova para o ano que vem. A grande novidade é que para a próxima edição do Música em Debate, em fevereiro de 2021, três filiadas se prontificaram a trazerem suas contribuições em músicas para debate: Marta Held, Maria Luiza Andres e Mara Zago.

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"Sempre o Música em Debate foi uma grande surpresa, a gente não contava nada até o momento do encontro e tudo era escolha minha e do Jean", lembra o professor Marcos. "A ideia agora é que as filiadas escolham uma música, pode ter um vídeo ou não, pode contar para a gente ou não", explicou o professor Jean.


"Rapazes, vocês realmente são surpreendentes. Nós já estamos aqui macacas de auditório. Vocês são demais!", Maria Cinto do Prado

"Eu que vim pela primeira vez adorei! Gostei muito!", Maria Fátima Roque

"Eu estou gostando, é a primeira vez que participo desse tipo de atividade do CFCL-SINESP. Estou achando legal! Eu gosto das músicas mais antigas, mas estou gostando, gente!", Andrea Facco

"Hoje teve queda de energia aqui e eu pensei que não ia conseguir ver o Música em Debate do CFCL-SINESP! Ainda bem que consegui!", Marta Held

"Obrigada Marcos e Jean pelo excelente trabalho", Iollanda Alves

"Sem palavras!", Mara Zago

"Parabéns Prof. Marcos e Prof. Jean pelo maravilhoso trabalho. Aprendi muito", Neuza Maria de Carvalho

"A gente adora fazer o Música em Debate do CFCL-SINESP! É uma delícia!", professor Jean


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