Cine Debate Mães Paralelas

Mães Paralelas destaca maternidade e produz profunda reflexão política acerca de temas que ainda hoje assombram o mundo, como o fascismo.  

No último dia 20 de maio, ainda prestando homenagens ao mês das mães, o Cine Debate analisou filme do cineasta espanhol Pedro Almodóvar. Mães Paralelas, lançado em 2022, acompanha a intersecção das histórias de duas mães em situações muito distintas. 

A mais recente incursão cinematográfica de Pedro Almodóvar comove e surpreende os espectadores do início ao fim. Sem dúvida, é o filme mais político do espanhol, que em mais de quatro décadas de produção evitou colocar a política no centro de suas obras (exceção feita ao tema identitário, especificamente queer, constantemente presente em seus trabalhos).

Os mediadores, professor Jean Siqueira e professor Marcos Maurício, começaram discorrendo sobre a carreira do diretor espanhol e sobre os principais intérpretes de Mães Paralelas, ressaltando a qualidade do elenco e da direção em mais uma obra-prima de Almodóvar.

Detalhes cuidadosamente escolhidos remetem a uma fase sombria da história espanhola

Marcos Maurício trouxe à luz uma cena em que a personagem Tereza, uma das mães retratadas pelo filme, apresenta um monólogo da peça Doña Rosita, lasoltera o ellenguaje de las flores, escrita pelo poeta e dramaturgo espanhol Federico García Lorca. O professor Marcos mostrou que a escolha desta obra de 1935 – a última que Lorca pôde ver representada, pois foi assassinado logo no começo da Guerra Civil Espanhola em agosto de 1936 – não foi uma escolha aleatória do diretor, uma vez que o tema central do filme é justamente o resgate da memória histórica, por meio da busca pelas ossadas de espanhóis mortos e enterrados pelos falangistas em fossas clandestinas no período da guerra.

Durante o debate, foram discutidos, em várias oportunidades, os diferentes papéis das mães retratadas no longa: mães que deixam os filhos em casa para trabalhar fora, mães que cuidam, que descuidam; mães que têm vida própria, mães que não têm.

Humanidade das personagens e alegorias sobre a maternidade encantam Cine Debate

A filiada Maria Lucia José destacou que a Espanha também deveria ser considerada uma das mães ressaltadas no filme (essa que cuida, descuida, ama, desama), a representação de uma mátria, segundo o professor Jean Siqueira.

Em muitas falas que se seguiram uma certeza pairava: a beleza da narrativa e da cinematografia empregada para contar a história. Fotografia, montagem, transição de cenas, diálogos, riqueza das personagens: todos estes pontos foram sendo, aos poucos, destacados e analisados pelas pessoas presentes ao encontro.

A humanidade das personagens também foi um tema muito presente nas discussões.

Fátima Roque chamou a atenção para o fato de Janis (personagem vivida por Penélope Cruz) ter uma personalidade muito realista, com defeitos e virtudes. Complementando essa ideia, Raquel Acosta observou que as personagens do filme não eram quadradas, mas ricas de características que se tencionavam, proporcionado a criação de vínculos e identificação entre elas e a audiência.

Alcina Carvalho, Dirigente Sindical, chamou a atenção de todos para a questão de “a verdade ser um campo de batalhas”, argumentando que parecia haver uma “amnésia proposital” acerca de certos momentos históricos, em virtude de alguns serem mostrados e outros permanecerem ocultos.

Lia Cunha problematizou um dos dilemas da personagem Janis, incomodada pelo fato de ocultar fatos importantes de uma pessoa a quem parecia devotar carinho e preocupação, afirmando que se Janis lutava “pelo resgate histórico de um povo, como ela poderia negar a sua filha Cecília o conhecimento de sua própria história? Como poderia esconder sua origem e o direito à memória?”

Filme alerta para o risco de se repetirem erros cometidos em passado recente

Jean Siqueira, por fim, apontou que as duas personagens centrais do filme, Janis e Ana (interpretada pela jovem Milena Smit), foram atreladas narrativamente pelo diretor a uma cor cada uma, com essas cores se misturando ao passo das reviravoltas do roteiro. Seriam as paralelas se cruzando, se tocando? Histórias pessoais e coletivas, universais, certamente se encontraram – da mãe e seus dilemas à mátria e seus dilemas. Subjetivamente, sensações individuais e coletivas certamente se aproximaram. O que deixou a reflexão de que idas e vindas em nossa própria história, em nosso enfrentamento com o passado e as expectativas de futuro, podem tecer inúmeras histórias paralelas.

Mas Mães Paralelas é, acima de tudo, um grito de alerta. A história precisa ser lembrada e relembrada sempre para que não repitamos os erros do passado. O fascismo, cada vez mais próximo e presente, na Espanha, no Brasil e em muitas partes do mundo, é uma praga que se esconde e, frente aos estímulos adequados, volta a emergir da latrina à qual parecia ter sido relegado. Almodóvar nos deixa o alerta de que discutir o passado e lutar para que as coisas mudem é a chave para enterrar novamente o fascismo. Caso contrário, a humanidade pode, mais uma vez, ser enterrada por ele.

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