Bacurau, produção franco-brasileira ganhadora do Prêmio do Júri na edição de 2019 do Festival de Cannes (e de mais de uma dezena de prêmios no Brasil e em outros países), foi o filme discutido no Cine Debate do CFCL – SINESP no mês de junho. 

Os temas da obra, dirigida por Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, ocuparam por algumas horas as quase 30 pessoas que participaram do evento, mediado pelos professores Jean Siqueira e Marcos Maurício. 

Na primeira parte do evento, foi colocado em destaque o fato de o filme ter dois diretores listados nos créditos. O prof. Jean Siqueira observou que, em geral, não é comum um filme ter a assinatura de dois diretores e explicou qual a função do responsável pela direção de arte, de fotografia e pela direção do filme.   

Obra retrata resistência contra ataques reais e metafóricos a um Nordeste abandonado

Cine Debate o Povo de Bacurau

“Bacurau é um filme sobre colonialismo, racismo, gênero, coletividade, brutalidade, união, resistência e esperança”, ressaltou o prof. Marcos Maurício em sua abordagem inicial. Tomando como ponto de partida um excerto de Paulo Freire em que ele diz que “esperança que não se organiza, morre”, o professor passou a contextualizar a história de Bacurau. Nesse sentido, destacou um diálogo que considerou fundamental para a compreensão da narrativa desenvolvido no longa-metragem:

– Quem nasce em Bacurau é o quê?

– É gente!

Pois foi essa “gente”, argumentou, que se uniu e transformou a esperança em reação aos ataques sofridos pela fictícia localidade retratada pelo filme.

Ficou claro ao longo do debate que o personagem central de Bacurau era a própria cidade e, consequentemente, seu povo, sua gente.

A Cidade de Bacurau é Personagem do Filme

Professor analisa intertextualidade entre Bacurau e obra de Euclides da Cunha Os Sertões

O prof. Marcos Maurício, em um interessantíssimo intertexto, aproximou a população de Bacurau do sertanejo, tal como descrito por Euclides da Cunha em Os Sertões (1901). Nessa obra, o autor mostrou como pessoas aparentemente frágeis são forçadas a reagir a partir de um determinado fato – como o pássaro Bacurau, mencionado em uma das cenas do filme como sendo uma ave impetuosa.

Bacurau Dialoga Com Os Sertões de Euclides da Cunha

Um exemplo dessa caracterização é o repentista do povoado: durante grande parte do filme ele aparece segurando seu instrumento musical, apenas cantando, tocando e sendo um “gaiato”, como o próprio se define, mas que, no final, aparece carregando um fuzil e defendendo seu povo e sua história. Maria Cinto associou a essa transmutação uma frase simples, mas direta: “Quando a palavra não basta...”

Bacurau desconstrói uma série de estereótipos”, resumiu a Dirigente Sindical Alcina Carvalho em parte de sua análise sobre o filme que, segundo ela, pode ser visto como uma grande crítica aos valores imperialistas estadunidenses e europeus. O filme lança luz sobre o fato de as vidas terem valores diferentes, a partir de um olhar hegemônico que desumaniza a ponto de, no nordeste brasileiro, ser possível fazer a caça humana, organizada por empresas privadas com a ajuda de governantes inescrupulosos e de brasileiros que se acham superiores por estarem nas partes financeiramente mais ricas do país.

Ainda ressalta que se trata de uma triste ficção que tanto retrata nossa realidade cotidiana. No filme, estrangeiros tentam exterminar toda uma cidade e em nível macro há uma necropolítica de Estado que extermina a própria população aos poucos: falta de água, de saúde, de educação. Entretanto, também há sementes de esperanças, pois Bacurau tem uma organização social própria, democrática, rompendo padrões impostos por outras sociedades.

Violência retratada em Bacurau gera críticas desproporcionais à obra

Como disse Maria Cristina Garcia, a sociedade do vilarejo de Bacurau é quase uma sociedade anárquica, que estabelece seus próprios rumos, e as decisões são conjuntas e compartilhadas entre os membros da cidade. Há um livre-arbítrio de escolhas e, consequentemente, de reações.

Em 2019, quando o filme foi lançado, houve muitas críticas ao excesso de violência presente na obra. O prof. Jean, no entanto, explicou que o uso excessivo de armas de fogo é comum em muitos filmes, sendo que alguns gêneros – e seu sucesso de público e de crítica – são construídos essencialmente com base na espetacularização da violência. Neste ponto, foi quase consenso entre os presentes de que o que choca no filme não é a violência e sim a resistência armada de quem se defende. Essas críticas seriam, então, uma forma de estranhamento decorrente da constatação de que o oprimido é capaz de reagir.

Maria Lúcia José, a Malu, ao falar sobre a violência dos estrangeiros no filme – em sua análise, pessoas medíocres e frustradas – trouxe o conceito freudiano de “princípio do prazer”, segundo o qual as ações humanas tendem a ser guiadas pela busca do prazer e do afastamento de tudo aquilo que não atinja essa meta. Assim, caçar e matar outros seres humanos geraria nesses estrangeiros um prazer, inclusive sexual, que se resumiria apenas à satisfação desse princípio, reduzindo essas pessoas a suas pulsões mais primárias.

Trilha sonora atua como mais uma personagem do longa

Malu também chamou a atenção para a marcante trilha sonora do filme e para a maneira com que ela parecia se integrar à narrativa pretendida. Ao final, o prof. Jean Siqueira retomou esse ponto e fez uma análise da trilha de Bacurau, comparando-a com a trilha de dois outros filmes dirigidos por Kléber Mendonça Filho – O som ao redor e Aquarius. Explicou, ainda, que a trilha sonora para este diretor é fundamental e sempre tem uma função narrativa em suas obras. 

Outros dois aspectos bastante relevantes foram levantados por Sandra Fátima: a importância do museu para o povoado e, consequentemente, para o filme, e a aparente ausência de um poder eclesial na região. Será que o filme, perguntou Sandra, teria “o mesmo desfecho caso os ‘estrangeiros’ tivessem conhecido o museu?” O casal forasteiro foi convidado pelos personagens da cidade a conhecer o museu, convite que recebeu como resposta apenas o desprezo dos “visitantes”. No museu estava a história daquele povoado, carregada de lutas, sangue e enfrentamentos. Se tivesse sido conhecida, a estratégia dos invasores certamente teria que ser repensada.

Sobre o poder eclesial, em determinado momento do longa, um dos personagens diz: “queria reabrir a igreja”, “mas ela nunca fechou, só virou depósito” foi a resposta dada pela médica Domingas, vivida por Sônia Braga. Sem a presença da autoridade representada por essa instituição determinando o caminho moral, Bacurau pode romper com preconceitos, constituindo assim, com base em sua história, sua peculiar identidade cultural.  

Desprezado no Brasil e sucesso de crítica no exterior

Por fim, o prof. Jean apontou o filme como uma expressão das obras pós-modernas ao sublinhar o fato de ela não ter, propriamente, um indivíduo como personagem central, mas sim vários personagens e seus dilemas criando microcosmos narrativos. Além disso, observou que Bacurau não poder ser facilmente categorizado sob um gênero cinematográfico apenas, pelo contrário, transita por marcas características de diversos gêneros – inclusive, ao se servir desse expediente, desencaminha seu espectador com relação à antecipação dos caminhos rumo ao desenvolvimento e desfecho da história.

Bacurau é um dos grandes filmes brasileiros dos últimos tempos, porém foi desprezado como obra cultural (o que gerou a impossibilidade de ser um dos indicados do Brasil para o Oscar de 2020) por um país que não consegue mais – desde 2016 – enxergar nenhum tipo de força na cultura e nas artes. Por outro lado, Bacurau foi citado por figuras de expressão política mundial, como Barack Obama, como um dos melhores filmes de 2020 (ano em que estreou nos EUA). Nesse sentido, parece que, em nossa realidade atual, “os estrangeiros” que atacam, matam e menosprezam o povo – os nascidos neste imenso Bacurau, agreste e pobre que é grande parte do Brasil – são formados pelo próprio governo e pelos que desconsideram a pluralidade de vidas e visões deste país.

Cine Debate Analisa o Longa Brasileiro Bacurau

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