Memórias do Subsolo

Na última sexta-feira de novembro, dia 25, o CFCL – SINESP realizou o encerramento das atividades do Clube de Leitura em 2022, perfazendo um trabalho de discussão e debates sobre nove títulos da literatura brasileira e da literatura mundial. Para esse último encontro do ano, a obra escolhida foi um clássico de Fiódor Dostoiévski: Memórias do subsolo.

Mergulho em águas profundas nas abordagens filosóficas e existencialistas

Famoso por seus escritos densos e repletos de ideias filosóficas e temas existenciais, a prosa do autor russo trouxe grandes desafios para o público presente ao evento. Talvez, de todos os textos já visitados ao longo dos mais de cinco anos de existência do Clube de Leitura do CFCL, Memórias do subsolo tenha sido o mais complexo escrito a ser analisado por seu assíduo e competente grupo de leitoras e leitores.

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Diferentemente dos desafios estilísticos colocados por livros como Intermitências da morte, de José Saramago, ou A máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe, ou ainda do experimentalismo narrativo de Raduan Nassar em Lavoura Arcaica, trabalhados em encontros anteriores, Memórias do subsolo lança a audiência no centro de diversas polêmicas teóricas, atravessadas por inusitadas e contraditórias camadas psicológicas do narrador personagem, demandando do público grande atenção, esforço interpretativo e pesquisa para a construção de um quadro de sentido minimamente coerente.

Foi destacado nas discussões que o texto aponta para temas da filosofia existencialista, como o das relações entre essência e existência, o da liberdade e da angústia, bem como remete a conceitos da obra do pensador alemão Friedrich Nietzsche, como em sua abordagem do niilismo e da transvaloração dos valores morais. Foi observada, ainda, a importância da oposição constante feita pelo narrador entre as dimensões da razão e das paixões, da vontade, como, por exemplo, por meio das categorias de “homens de consciência” e “homens de ação”.

Ironia e humor sofisticados permeiam as narrativas do homem do subsolo

Algumas filiadas notaram o uso da ironia e às vezes até de uma leve e singular forma de humor no livro – aspectos reforçados pelas dualidades e contradições abundantes nos relatos do homem do subsolo.

Sendo um texto narrado em primeira pessoa, a dimensão subjetiva evidenciada certamente deixou dúvidas com relação ao conteúdo exposto, especialmente quando, em mais de uma ocasião, o homem do subsolo declara expressamente estar mentindo ou simplesmente imaginando.

E o que dizer do último parágrafo do texto, colocado na perspectiva de um narrador universal, em terceira pessoa? Muita discussão e o homem do subsolo apresenta, em seu relato, enigmas e quebra-cabeças difíceis de montar, tanto na forma quanto no conteúdo das escolhas que faz ao apresentar seus pensamentos mais íntimos. Estariam nossos filiados diante de uma passagem para seu inconsciente? As relações entre o trabalho de Dostoiéviski e a ideias centrais de Freud e da psicanálise também não deixaram de ser apontadas.

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Após horas de partilha, ficou a sensação de que o homem do subsolo tinha muito mais a dizer; sobre ele, sobre sua época, sobre a existência humana e sua condição, sobre os conflitos, as esperanças e os medos de cada um.

“Memórias do subsolo” é daqueles textos que tiram do conforto e exigem demais, deixando como resíduo muito aprendizado e inquietações. A partilha das ideias e das perspectivas proporcionada pelo Clube de Leitura só maximiza esses traços.

Uma obra grandiosa, de um grande autor, com a participação preciosa dos nossos filiados encerra um ano rico de experiências literárias e culturais junto ao CFCL-SINESP. Junte-se, você também, a esses momentos de muita discussão e amizade. Aguardamos você em 2023!

Até breve!!!

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