CFCL Benê do SINESP Convida Rafael Gallo

Na sexta-feira, 26 de agosto, foi realizada mais uma edição especial do Clube de Leitura, o CFCL Benê do SINESP Convida, com a participação do escritor Rafael Gallo. O evento foi o segundo dessa natureza, sendo que a edição anterior, realizada em agosto de 2022, contou com a participação do escritor Wilson Alves-Bezerra e a discussão da obra Vapor barato.

O encontro foi híbrido, sendo transmitido via plataforma Zoom para quem não conseguiu comparecer presencialmente. Os professores Marcos Maurício e Jean Siqueira coordenaram a dinâmica do evento, acompanhando e interagindo com os filiados que compareceram ao CFCL e com os que participaram de forma virtual.

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Rafael Gallo compareceu ao evento para discutir com o Clube de Leitura seu último livro publicado, o romance Dor Fantasma, vencedor do Prêmio Literário José Saramago em 2022. No enredo, Rômulo Castelo, um professor universitário de música e um dos poucos pianistas do mundo – ele acredita ser o único – capazes de performar uma peça do compositor húngaro Franz Liszt, considerada impossível de ser tocada – a Rondeau fantastique –, tem agendada uma turnê pela Europa onde apresentará a famosa obra para a qual se preparou a vida inteira. Contudo, um acidente destrói o futuro por ele meticulosamente planejado e a partir daí tem início sua jornada pelo imponderável da vida, pelo improviso e pelo caos.

O autor respondeu diversas perguntas sobre o texto de Dor Fantasma e seu processo criativo, bem como acerca de outras curiosidades envolvendo sua trajetória como escritor, sua participação em concursos literários, suas aspirações profissionais e suas opiniões sobre temas colocados em relevo por seu texto.

Dentre os pontos destacados no debate sobre o livro, considerações e problematizações a respeito da personalidade singular de seu personagem principal, Rômulo, foram recorrentemente apresentadas – como, por exemplo, seu egoísmo, sua obsessão e perfeccionismo, sua crueldade, sua incapacidade de interpretar situações do convívio social, seu descolamento da realidade e das implicações de suas ações.

Autor ouve opinião de filiadas sobre o livro Dor Fantasma  

Nesse sentido, a filiada Maria de Lurdes, presencialmente no CFCL, chamou a atenção para os traços narcísicos explícitos na conduta e pensamentos de Rômulo, algo evidenciado, entre outras de suas posturas, pelo absoluto descomprometimento afetivo com a esposa, Marisa, e o seu pequeno e frágil filho, Franz. De passagem, Lurdes ainda declarou que o livro de Gallo foi um dos que mais gostou de ler desde os primeiros encontros do Clube de Leitura há mais de sete anos – sendo ela uma frequentadora da atividade desde seus primórdios.

Participando on-line por meio do chat do Zoom, e acessando o evento de fora do país, a filiada Maria Cristina Garcia também não deixou de tecer elogios à obra e de elencá-la entre as mais interessantes que teve a oportunidade de ler junto com o grupo do Clube. Comentando sobre o conteúdo do texto, Cris trouxe à baila elementos da infância de Rômulo, especificamente as rígidas exigências de seu pai, um reconhecido maestro, com vista à sua formação como um pianista de excelência.

A filiada Rita Maria, em mais uma interação por meio da plataforma Zoom, trouxe, como costuma fazer em sua participação no Clube de Leitura, um texto de sua autoria comentando aspectos de Dor Fantasma, com destaque para o tema da amputação e da perda da identidade entre o eu e o corpo, da derrocada do sentido da existência, decorrentes dessa tragédia. A qualidade da prosa poética de Rita invariavelmente propicia grande deleite a todo mundo que participa do Clube de Leitura - e dessa vez, diante do autor Rafael Gallo, não foi diferente.

Já a filiada Joaquina, também presente sem a mediação da tela dos dispositivos, ressaltou o papel de Rômulo como centro gravitacional da narrativa, mas não deixou de observar a importância e complexidade de outros personagens da história, desde a família de Rômulo, até seus colegas de trabalho na universidade. Em especial, chamou sua atenção a personagem de Sarah, uma das alunas de Rômulo. Joaquina chegou a questionar se ela era uma pessoa real ou uma construção da mente do pianista, uma vez que sua presença, sugeriu a filiada, fazia-se efetiva em momentos em que Rômulo estava sozinho. Sua colocação gerou grande curiosidade e dúvida e ali, rapidamente, consultas ao livro, em busca das passagens em que Sarah e Rômulo interagiam. O próprio autor disse não ser essa sua intenção ao escrever, mas na hora não conseguiu recordar se realmente havia construído a interação entre Rômulo e Sarah de modo a dar respaldo a essa interpretação – algo que reconheceu ser muito interessante. Contudo, uma passagem em que Sarah chegou a dialogar com Marisa mostrou que ela não poderia ser um só artifício da perturbada mente de Rômulo. Seja como for, essa possibilidade rendeu boas reflexões sobre recursos narrativos dessa natureza.

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A dirigente Alcina Carvalho, por sua vez, problematizou os valores formadores da personalidade de Rômulo, reconhecendo, por um lado, sua infância aparentemente desprovida de afeto e construída sobre uma sólida e dura disciplina, além da ausência da figura materna, e, por outro lado, a introjeção dessa disciplina como a única força motriz da sua vida. O resultado dessa fórmula, claro, foi uma persona descolada do mundo, com poucos afetos positivos para oferecer ao seu entorno e incapaz de se adaptar ao novo, ao fora das linhas da partitura, por assim dizer.

A qualidade da escrita de Rafael também recebeu atenção na discussão, uma vez que foi caracterizada diversas vezes como fluída para a leitura, precisa em suas descrições e poética em suas imagens. O dinamismo de seu texto, o tensionamento da narrativa, a criação e a quebra de expectativas poderiam, inclusive, conforme ressaltado na ocasião pela dirigente Maura Maria da Silva, render um material muito rico para a adaptação cinematográfica.

Rafael Gallo revela detalhes do processo criativo para redigir Dor Fantasma

Em intervenção também presencial, a filiada Eliane Cunha Serafini, a Lia, trouxe diversos questionamentos a respeito do processo criativo do autor, bem como de sua preparação e pesquisa para a redação de Dor Fantasma. Gallo foi bastante detalhista em apontar suas dificuldades e desafios ao longo do processo de concepção e redação do texto. Chamaram a atenção em seu relato suas entrevistas com pessoas amputadas e suas experiências de vida. Esse trabalho, afirmou Gallo, foi fundamental para a construção linguística da verossimilhança dos estados mentais de Rômulo e das descrições objetivas dos aspectos motores de sua condição pós-amputação. Em seus comentários, Lia fez coro aos elogios à riqueza da narrativa psicológica costurando os acontecimentos de Dor Fantasma, característica que, segunda ela, mantiveram um constante suspense no ar em torno da possibilidade ou não de redenção de Rômulo. 

Uma das características do evento Clube de Leitura CFCL Benê do SINESP Convida é justamente a possibilidade de que as filiadas e os filiados possam levar também convidados para a participação e assim o fez a filiada Jussara, que compareceu ao evento acompanhada de uma amiga, e, em sua provocação a Rafael Gallo, sublinhou as qualidades da narrativa de Dor Fantasma, indicando sua predileção pelas passagens em que a voz do narrador se misturava aos pensamentos de Rômulo – algo que, segundo ela, remetia a características identificáveis em alguns narradores dos textos de José Saramago. Gallo reconheceu a influência de Saramago sobre sua formação como leitor e escritor e concordou com a aproximação feita quanto ao papel do narrador no texto.

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A estrutura do texto, dividido em quatro partes – Coda, Exposição, Desenvolvimento e Cadenza -, também trouxe ricas reflexões – como, por exemplo, as levantadas on-line pela filiada Angela Figueiredo, que perguntou sobre a razão da escolha desses títulos, bem como questionou se o conhecimento sobre teoria musical seria algo importante, ou mesmo imprescindível, para a interpretação adequada do texto. Em resposta, Gallo disse que qualquer leitora ou leitor sem nenhuma formação musical poderia acompanhar a narrativa sem perder elementos relevantes de sua estruturação. Ressaltou apenas que um ou outro conhecimento de teoria musical poderia enriquecer o texto do ponto de vista meramente informacional, como visível nos títulos dos capítulos – já que “coda” remete ao final de uma etapa da música (coincidente com o início da triste nova jornada de Rômulo) e o início de uma outra etapa, e a “cadenza” diz respeito a um momento de solo musical onde o músico pode mostrar suas habilidades (ressaltando o isolamento de Rômulo).

Ao longo da tarde agradabilíssima, com direito a Liszt na trilha sonora durante o intervalo para o café, foi o conhecimento e o prazer com a arte que refletiram o brilho do reluzente Rafael Gallo. A literatura brasileira, mais uma vez, em boas mãos, atravessada pelas palavras certeiras. A possibilidade da conversa com aqueles que criam obras de arte é algo inestimável e imensamente gratificante.

Em prosseguimento a esse projeto de partilha de ideias e inspirações, o CFCL Benê do SINESP terá como próxima edição do “Convida”, que será realizado em novembro deste ano, a participação dos autores do livro “Contos em curso – um experimento literário no SINESP”. Será mais uma tarde de discussão, promoção do conhecimento e diversão. Convidem os amigos e participem!

 

 ASSISTA À ENTREVISTA COM O ESCRITOR RAFAEL GALLO

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