Em meio à celebração do Mês da Consciência Negra, e das reflexões que ele exige, o Cine Debate de novembro trouxe para a discussão o documentário “13ª emenda”, dirigido pela estadunidense – uma mulher negra – Ava DuVernay.

O filme, lançado em 2016, dois anos após o lançamento de “Selma”, grande sucesso de crítica e bilheteria também dirigido por Ava, tem como tema central o encarceramento em massa nos EUA, em especial da população negra. “Selma” retrata a luta de Martin Luther King pelos direitos civis dos afro-americanos.

O título da obra refere à 13ª emenda da Constituição dos EUA, promulgada em 1865, trazendo no texto de sua primeira seção a ideia de que “Não haverá, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito a sua jurisdição, nem escravidão, nem trabalhos forçados, salvo como punição de um crime pelo qual o réu tenha sido devidamente condenado”. Assim, por meio dessa lei, a escravidão dos negros nos EUA pode passar da tutela dos donos de escravos para o Estado. O documentário de Ava mostra, então, como o encarceramento em massa nos EUA (a maior população carcerária do mundo) é uma consequência do ininterrupto processo de segregação racial e marginalização da população negra que atravessa a chamada “land of freedom” desde sua fundação.

No documentário, diversos especialistas, professores e professoras de estudos ligados à africanidade e à negritude, políticos, ativistas e pessoas ligadas ao poder judiciário, discutem o tema do encarceramento e explicitam o caráter estrutural do racismo no país bem como suas perversas relações com o modo de produção capitalista.

Na discussão que se deu no “Cine Debate”, as semelhanças com a história do Brasil, seu sistema carcerário e a questão racial, não deixaram de ser ressaltadas.

Problematizações também surgiram a respeito das ligações entre a religião, o capitalismo e o racismo, apesar dessa questão não ser diretamente trabalhada pelo filme de Ava.

O caráter incômodo do conteúdo do filme também foi constantemente aludido. Trata-se de um filme com cenas explícitas de morte e violência que, quando contextualizadas historicamente, realmente causam enorme repulsa. O filme, afinal de contas, pretende desempenhar um papel de denúncia acerca de uma realidade social para qual governos não só fecham os olhos como também elaboram políticas de exclusão e exploração (o filme é bastante incisivo em mostrar como, de democratas a republicanos, a classe política, serva dos interesses econômicos, não se distingue substancialmente quando se trata de excluir negros, latinos e pobres do centro da vida social digna nos EUA).

O tema da veiculação de imagens que atestam a violência contra a população negra no país também foi levantado tendo em vista que a questão é explicitamente debatida pelos entrevistados e entrevistadas nos minutos finais filme – aliás, onde as cenas mais brutais da obra talvez sejam apresentadas.

“13ª emenda” é um filme importantíssimo, que gera revolta por conta do mundo que ele nos apresenta. Conforme dito mais de uma vez ao longo do “Cine Debate”, trata-se de um documentário que deveria ser item obrigatório na formação educacional, principalmente levando-se em conta a pouca importância que nosso país dá à educação antirracista.

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