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O reconhecimento da obra e do pensamento de Paulo Freire, patrono da Educação Brasileira e da Educação no Município de São Paulo, incomoda, justamente porque contraria a desumanização e a opressão que compõem a lógica neoliberal e da elite, observa Denise Aguiar, dirigente do SINESP.

Denise Regina da Costa Aguiar é vice-diretora de eventos educacionais do SINESP, além de Supervisora Escolar e doutora em Educação, e integra a Cátedra Paulo Freire. Em entrevista exclusiva, por ocasião do centenário de nascimento do grande educador, a dirigente fala do importante legado deixado por Paulo Freire, que persiste cada vez mais vivo nos dias de hoje.

SINESP - Paulo Freire foi um Educador que transcendeu o seu tempo. Qual o seu significado para a formação de um pensamento educacional progressista?

Em toda a sua obra, Paulo Freire pensa a existência concreta, a vida humana, e propõe, a partir da afirmação total de uma ética universal humana, uma concepção de educação, uma epistemologia, uma pedagogia crítico-libertadora comprometida historicamente com o desenvolvimento pleno da vida. Paulo Freire propõe uma educação crítico-libertadora como defesa de um projeto de ser humano, na perspectiva de ser mais, da ética universal do ser humano, e a define também como uma ética maior, de vocação ontológica do ser mais.

Todo ser humano é incompleto, inconcluso, inacabado por isso, é inerente à vida humana um permanente processo de busca, de conscientização de sua inconclusão, de conhecimento de si mesmo, de reconhecimento do outro na relação eu-tu e de conhecimento do mundo, para a formação da vocação ontológica de ser mais.

A ética humana é a essência da educação crítico-libertadora, por isso, educadores e educandos devem se orientar no sentido de efetivar sua vocação para a humanização.

A vocação ontológica de ser mais se relaciona com o sonho, a esperança, o inédito viável, a utopia inerente à própria existência humana na história.

Para Freire, a humanização, a busca da realização da vocação ontológica de ser mais está imbricada com a epistemologia.

Toda epistemologia é um ato político e expressa intencionalidades e valores: a favor do que, a favor de quem, para que, por quem e para quem é produzido o conhecimento científico. Assim, toda prática educativa explicita um sonho, uma intencionalidade, uma opção política e de valores, sem neutralidade. Não há neutralidade na prática educativa.

Na epistemologia crítica, a construção do conhecimento intenciona a conscientização da realidade, uma reflexão crítica no mundo, com o mundo e sobre o mundo, em interação com os outros, num processo de (re)construção permanente, criando possibilidades novas de ações para transformar a realidade social, que está situada num determinado tempo e espaço.

A educação problematizadora considera como exigência e como essência da práxis transformadora a ação dialógica.

O diálogo é o encontro dos homens mediatizados pelo mundo e se dá na esperança, na luta, na busca, na escuta atenta, no quefazer cotidiano.

Uma situação epistemológica, de construção de conhecimento, se dá na tríade, de A com B, mediatizados por objetos de conhecimento, ou seja, entre educadores e educandos mediatizados por objetos de conhecimento significativos.

Assim, para Freire não existe dicotomia entre ensinar-aprender, teoria-prática, saber popular-conhecimento científico, ética-estética, consciência-mundo, leitura do mundo-leitura da palavra, pensar-fazer, política-pedagogia, sujeito-objeto de conhecimento, relação afetiva- relação cognitiva.

SINESP - Conte-nos um pouco sobre os trabalhos da Cátedra Paulo Freire, por favor.

A Cátedra foi criada, após o falecimento de Paulo Freire, em sua homenagem, no segundo semestre de 1998, sob a direção do Programa de Pós-Graduação no qual Freire trabalhou, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

A Cátedra Paulo Freire, coordenada pela Professora Doutora Ana Maria Saul, caracteriza-se como um espaço que visa o desenvolvimento de estudos e pesquisas sobre e a partir da obra de Paulo Freire, para compreender o seu pensamento e reinventá-lo. Os estudos e pesquisas abrangem diferentes regiões do Brasil. O objetivo é aprofundar as informações sobre a influência e o pensamento de Paulo Freire para subsidiar a (re) criação de políticas e práticas educativas nos sistemas públicos de ensino.

Há um portal na internet para divulgar os estudos, resultados das pesquisas, além de produções de periódicos, livros, dossiês, seminários, apresentações em eventos nacionais e internacionais e assessoria a redes públicas de ensino.

SINESP - Qual a influência do pensamento de Freire em sua atuação como Gestora Educacional?

Considero três premissas na minha atuação como gestora:

1-    A Educação crítico-problematizadora, uma concepção de educação humanizadora, que tem o ser humano como projeto, o desenvolvimento integral, pleno, das potencialidades do ser humano, a vocação ontológica do ser mais. A formação de um sujeito crítico, ético, problematizador, pesquisador, questionador, inventivo, criativo, curioso, transformador da sua realidade.

2-    A Gestão Democrática: construção pela participação, de um projeto de educação com qualidade e transformador. A escola, em seu tempo-espaço, garantiria o exercício dos direitos sociais, na formação de sujeitos cidadãos, com princípios coletivos de democracia, solidariedade, tolerância, tendo como horizonte a construção de uma sociedade mais justa e humana. O fortalecimento do trabalho coletivo e a efetivação dos colegiados, Conselho de Escola, APM, CRECE, Grêmio Estudantil, Conselho Mirim, Assembleias de educandos, entre outras formas de organização.

3-    Democratização do Saber: A construção e o fortalecimento do Projeto Político Pedagógico e o Projeto Curricular. Implica o princípio da autonomia pedagógica, motivando a comunidade escolar a se assumir como uma comunidade curriculista efetiva, como construtora de sua própria prática pedagógica, o que requer um trabalho coletivo pelos educadores para problematizar e analisar a realidade, em que a comunidade se insere. A construção de um programa próprio da escola, pelos seus instituintes, a partir das necessidades da realidade local, identificadas por meio do estudo dessa realidade, com uma intencionalidade política de mudá-la. A dimensão epistemológica da prática educativa.

SINESP - Quais os desafios que ainda existem para a obra e ensinamentos de Freire serem efetivados?

A ruptura e a superação com o projeto neoliberal de educação, de uma ética menor, uma ética mercadológica, que fundamenta a educação bancária, autoritária, domesticadora, excludente, individualista. A luta contra todas as formas de discriminação étnica, cultural, social, de gênero, de classe, contra a desigualdade social, a miséria, a fome, a violência, contra todas as formas de desumanização e opressão.

SINESP -  A intolerância e desrespeito ao trabalho e à obra de Freire, que inclusive foi Secretário de Educação da cidade de São Paulo. A que se deve tudo isso?

O reconhecimento de sua obra e pensamento incomoda a elite dominante, o grupo neoliberal, movimento conservador e autoritário da sociedade.

Paulo Freire é o Patrono da Educação Brasileira e da Educação no Município de São Paulo. Recebeu 40 títulos de Doutor Honoris Causa por todo o mundo.

Segundo pesquisa realizada, em 2016, pelo professor associado da London SchoolEconomics, Elliott Green, o livro Pedagogia do Oprimido já foi citado em 101 idiomas e escrito em 57 idiomas. É o terceiro livro mais citado na área de ciências humanas. O livro Pedagogia da Autonomia já vendeu mais de um milhão de exemplares.

Paulo Freire é reconhecido mundialmente, seu legado estudado e reinventado.

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