Um limite entre nós

O Cine Debate do CFCL-SINESP analisou, na sexta-feira, 14 de outubro, o filme Um limite entre nós, lançado em 2016. O longa foi produzido e dirigido por Denzel Washington, que ainda estrelou a obra juntamente com a vencedora do Oscar Viola Davis.

Fences (título original do filme, que pode ser traduzido do inglês para “cerca”), é uma versão cinematográfica da peça homônima publicada em 1983, vencedora do Prêmio Pulitzer em 1987, de autoria do dramaturgo estadunidense August Wilson – que também foi o autor do roteiro adaptado. Denzel Washington havia encenado com a própria Viola Davis essa peça na Broadway e foi dessa experiência que veio o desejo de levar a história de Troy Maxson (personagem que ele viveu no teatro) e de sua família para o cinema.

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Para enriquecer o debate e o envolvimento com a narrativa fílmica, as filiadas assistiram a duas cenas extraídas de apresentações teatrais da obra, uma com o ator James Earl Jones no papel de Troy, e outra já com Denzel e Viola.

Uma cena da obra chamou a atenção. Ao ser questionado pelo filho Cory (Jovan Adepo) se não gostava dele, Troy diz que não cabe a um pai gostar ou não de seus filhos, uma vez que esse papel consiste, apenas, em ser responsável pela família e proporcionar a ela as condições materiais para a vida. A postura de Troy trouxe grandes discussões ao Debate, apontando questões ligadas à importância da afetividade para a saúde familiar e ao seu próprio comportamento de caráter dominador e autoritário, fruto de seu passado e das pressões sociais exercidas sobre ele.  

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Nesse contexto, ele jamais deixou de proporcionar a provisão para Cory ou para a filha Raynell (Saniyya Sidnei) – apenas o filho mais velho, Lyons (Russel Hornsby), não pôde contar com a presença do pai na infância, já que coincidiu com o tempo em que Troy esteve encarcerado.

As sociedades patriarcais e o machismo 

Enriquecendo ainda mais a discussão, o papel provedor do personagem e a sua postura com a esposa Rose, vivida por Viola Davis, também não passou despercebido, uma vez que todo fruto financeiro de seu trabalho era entregue a ela, como se isso fosse uma forma de “tomar conta dela”. E o grupo aprofundou a análise, levando o debate para outro caminho, quando foi defendido que a postura de homem provedor da família é consequência de um papel a ser desempenhado pelo homem no marco das sociedades patriarcais e machistas. Segundo essa linha de raciocínio, a imagem do homem construída por essa visão de mundo explicava a postura desprovida de afeto que Troy havia manifestado para Cory, uma vez que, de acordo com essa concepção, ao homem caberia ser “duro” em relação aos seus sentimentos, pois exibi-los ou vivê-los seria sinal de fraqueza, de falta de masculinidade, além de representar uma forma de proteção às adversidades que serão enfrentadas pelos filhos ao longo da vida.

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Desempenhando o papel destinado às mulheres na época, Rose também é uma filha dessa sociedade e de seu passado, por isso se vê e se coloca apenas como a mulher, a mãe, a cuidadora, restringindo sua existência a essa condição, mas que reage, da forma possível, contra a opressão que sofre.

As “cercas”, que remetem diretamente ao título da peça e do filme, também foram mencionadas, tanto como limitadoras para tudo o que vem de fora para dentro, quanto  como cerceadoras de quem está na parte interna. Essa ambiguidade marca os conflitos vividos por Troy. Por não ter obtido sucesso na vida pessoal – ele era um excelente jogador de baseball que, por ser negro e ter ingressado no esporte tardiamente, não pôde gozar do reconhecimento que desejava e julgava merecer – teve que assumir a função de agente de serviços de coleta de resíduos, vivendo uma vida absolutamente simples. Esse “fracasso”, aliado a uma personalidade com traços narcisistas, teria contribuído para a constituição psíquica de uma pessoa ressentida, incapaz de apoiar os familiares em seus sonhos, em seus projetos. Desse modo, Troy tanto se cercou em seu mundo não concretizado quanto criou uma divisão, um afastamento, com relação a seus filhos Cory e Lyons. Mesmo com relação a Rose uma cerca intransponível – a do adultério resultante em uma filha fora do casamento – foi erguida, ainda que a cerca material por ela solicitada só tenha sido construída muito tempo depois.

Fotografia social de uma sociedade racista

Um limite entre nós foi descrito, no debate, como uma fotografia, um registro de um momento social em que emergia uma sociedade racista, que desumanizava opressores e oprimidos, fato visível nas atitudes de Troy. Se ele era cruel, duro com as pessoas que o amavam, era o comportamento da sociabilidade humana sendo movido. Daí a dificuldade, e talvez a injustiça, de se julgar moralmente Troy ou qualquer um dos outros personagens do filme. Troy foi um homem oprimido socialmente, explorado, condenado, excluído pela cor de sua pele. Portanto, como esperar dele a ruptura com esse padrão de violência social? É necessário analisá-lo a partir do seu contexto histórico. E justamente nesse contexto, as cercas deveriam ser pensadas como uma metáfora presente ao longo de todo o filme, abrangendo tanto uma dimensão individual quanto uma dimensão coletiva. No plano individual, as cercas apontavam para os conflitos, as dificuldades na construção das relações, ao passo que no plano coletivo as cercas apontavam para a exclusão de pessoas como Troy, sua família e seu amigo Bono.

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Diante disso, as “cercas ou redes de proteção” foram apontadas como elementos centrais do filme, por fazerem frente a um mundo hostil à população negra, hostilidade essa que demandou de Troy um “malabarismo de sobrevivência”, visando a garantir a continuidade do seu lar, apesar dos conflitos e das decisões moralmente reprováveis de seu personagem.

A figura de Rynell foi apontada como uma metáfora do futuro, de uma nova vida menos conflituosa. Para uma filiada, Rynell “resgatava” o pai para os irmãos, restaurando uma ligação que havia se desfeito em virtude dos descaminhos em que Troy incorreu. Essa percepção foi ilustrada com uma cena em que Rynell canta para Cory uma canção que Troy sempre cantava (uma canção sobre seu cão, Blue) e faz com que o irmão cante junto com ela, despertando nele lembranças do amor pelo pai.

Foram compartilhadas todas as passagens do texto teatral em que a palavra fences aparecia, corroborando, desse modo, várias das falas que abordaram o tema das cercas anteriormente. Como o autor da peça também roteirizou o filme, a proximidade dos textos permitiu esse recurso para o mapeamento das ocorrências da palavra também na obra visual.

Metáforas inspiradas no beisebol permeiam o filme

O professor Jean fez um “pequeno tutorial” sobre algumas regras e características do beisebol, para ilustrar a importância do domínio desse vocabulário, pois o filme, principalmente nas falas de Troy, se serviu inúmeras vezes de alusões e expressões típicas desse esporte, fato que poderia tornar alguns diálogos do filme difíceis de acompanhar. Para ratificar a importância do tutorial, foi exibida uma cena do filme em que Troy tenta justificar a traição matrimonial por meio de analogias com o beisebol.

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A última cena do filme chamou a atenção para o fato de encerrar um aspecto quase mágico e surreal – isso em um filme construído, até por ser adaptação de uma peça teatral, fortemente ancorado em um convincente realismo. Na cena, é possível ver Gabe, irmão de Troy, acometido por uma deficiência mental em virtude de um ferimento de guerra, tentando tocar seu trompete, visto por ele como um instrumento celestial (Gabe se vê como o anjo Gabriel, combatendo as forças do inferno). Ele faz com que o céu se abra como luz na forma de uma ave, embasbacando Rose, Cory, Lyons, Rynell e Bono, que parecem presenciar algo divino. Essa metáfora final poderia ser vista como o anúncio de um futuro melhor, promissor, afinal, em 1964, ano seguinte ao da ação fílmica, a Lei de Direitos Civis seria assinada nos EUA e isso marcaria, ao menos formalmente, o fim da segregação imposta pelas chamadas “leis de Jim Crow”. A era de Troy havia chegado, em algum sentido, ao fim.

E mais uma rica tarde de debates e interpretações também chegou ao fim – mas, claro, a luz dos novos encontros já estava ali, apontando o caminho rumo a novos filmes, novas leituras.

E, por estarmos, naquele momento, a um dia de uma data tão especial, foi deixado por todas e todos os presentes “um viva às professoras e professores de todo mundo!”

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