Educação na Mídia

Ensino religioso voltado a apenas uma crença dificulta o processo de identificação dos estudantes negros

SÃO PAULO e BELO HORIZONTE

Veja AQUI a publicação original na Folha de São Paulo

A escola pública deve respeitar todas as crenças religiosas, inclusive o candomblé, a umbanda e as pessoas que não têm religião. Essa é a opinião de 93% dos brasileiros, de acordo com pesquisa Datafolha.

O resultado do estudo vai ao encontro da Base Nacional Curricular Comum. Segundo a BNCC, temas voltados para a diversidade e identidade cultural, em especial a história dos povos africanos, devem ser trabalhados do 6º ao 9º ano do ensino fundamental.

Os assuntos são abordados na disciplina de história, mas a BNCC recomenda que sejam incluídos também em língua portuguesa, língua inglesa, artes, educação física e geografia.

O ensino religioso voltado a apenas uma crença (chamado de confessional), aliado ao racismo nas escolas e à falta de história e cultura afro-brasileira nos currículos, dificulta o processo de identificação dos estudantes, o que, segundo a psicóloga Ana Carolina Barros Silva, coordenadora da ONG Casa das Marias, pode afetar a autoestima e alimentar o sentimento de inferioridade.

"Como você vai se sentir acolhido nesse lugar, se nada ali te diz respeito?"

Frei David, fundador da ONG Educafro, diz que alunos negros e pertencentes a religiões afro-brasileiras recebem, na escola, pouca ou nenhuma referência sobre sua história, o que pode gerar fragilização emocional.

A pesquisadora da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) Estela Souza, diz que ensinar a história da África desde a primeira infância tornaria os estudantes capazes de conhecer o outro e sua história, além de entender as diferenças físicas e culturais que estão presentes no Brasil.

Para Eduardo Gonçalves, professor de história no ensino fundamental de uma escola particular em Belo Horizonte, a África ainda é muito retratada como fonte de mão de obra para o resto do mundo.

Também professora de história em Belo Horizonte, Gabriella Sangiorgi, que já atuou na edição de livro didático, diz que identifica uma preocupação em inserir os processos relacionados ao continente africano aos demais conteúdos.

"Considero essa uma mudança importante, não pensar apenas na África ao se falar sobre a escravidão."

Já o babalorixá Sidnei Nogueira, doutor em semiótica e autor do livro "Intolerância Religiosa" (Editora Jandaíra, 160 págs., R$ 25,40), diz que a escola, hoje voltada ao conhecimento formado na Europa, deve ampliar as referências usadas na construção do conteúdo para cumprir seu papel social, tornando a sociedade menos racista e mais tolerante.

Na opinião da vereadora de Belo Horizonte Macaé Evaristo (PT), o resultado da pesquisa se contrapõe à realidade de muitos locais.

"São inúmeros os casos agressivos em relação às pessoas que seguem tradições religiosas de matriz africana, que vão desde a criminalização, demonização, intimidação, dano ao patrimônio e destruição de elementos sagrados."

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