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A alteração da rotina de estudantes da rede pública, com falta de interação com outras crianças, distância do ambiente coletivo da escola e dificuldade para acompanhar aulas, entre outros fatores como o medo do desconhecido e o luto, impõem sequelas que pressionarão as equipes escolares quanto houver o retorno às atividades presenciais.

Muitos alunos trarão o resultado de situações traumáticas, como a perda de renda dos pais, complicações enfrentadas com a doença e o luto pela morte de alguém próximo. Mas mesmo os que não passaram por tais situações trarão algum tipo de sequela dos tempos de privação a que foram submetidos, prolongados mais do que o esperado pela maneira como a situação foi conduzida pelas autoridades públicas e privadas.

Muitas crianças e jovens que tinham comportamento considerado dentro da normalidade voltarão com alterações visíveis, em vários níveis, algumas com patologias psicológicas e psiquiátricas, como ansiedade e depressão. Pesquisa realizada pelo Datafolha indica:

●a falta de motivação, que em maio atingia 46%, chegou a 51% em julho;

●os que enfrentam dificuldades para manter a rotina saltaram de 58% para 67%;

●o percentual dos que estão tristes começou a ser medido em junho, quando chegou a 36%, e passou para 41% em julho;

●no mesmo período, o de irritados foi de 45% para 48% e somam 74% os que se sentem tristes, ansiosos ou irritados.

Os educadores, muitos dos quais vivem situações semelhantes, terão de lidar com tudo isso. Os Gestores, em especial, terão grandes responsabilidades pelo papel de liderança que exercem e será mais necessário e exigido.

Muito disso foi abordado nas lives do SINESP que buscaram analisar as condições de saúde mental e emocional dos educadores na pandemia, com a Drª em Psicologoa Vera Iaconelli (veja AQUI) e com o filósofo e educador Mário Sérgio Cortella (Veja AQUI).

 

Veja a seguir a divulgação da pesquisa do Datafolha – e AQUI a publicação original.

 

Pesquisa aponta aumento de ansiedade e tristeza em jovens na pandemia

Estudantes da rede pública têm rotina alterada e dificuldade para acompanhar aulas

Três adolescentes de São Paulo com depressão, tratados no Hospital das Clínicas, já apresentavam melhora quando veio a pandemia. Confinados, pioraram e tentaram se matar. Um menina de 12 anos, que antes do isolamento fazia terapia para lidar com o bullying, nos últimos meses passou a falar em suicídio e cortou a tela da janela do apartamento. Uma garota de 14, que nunca havia tido complicações emocionais, no confinamento desenvolveu estresse grave e uma agressividade a ponto de deixar os pais com medo de que parta para o ataque físico contra eles. Um menino de 10, antes tranquilo, agora tem crises de falta de ar e de choro de madrugada.

O confinamento prolongado no Brasil apresenta a fatura, e até famílias mais equilibradas enfrentam um esgotamento. Uma pesquisa nacional do instituto Datafolha, em parceria com a Fundação Lemann, o Itaú Social e a Imaginable Futures, vem acompanhando crianças e jovens do ensino público ao longo da isolamento e revela seus impactos.

Essa é a terceira fase da pesquisa “Educação não Presencial na Perspectiva dos Estudantes e suas Famílias”, de abrangência nacional –a primeira fase foi em maio e a segunda, em junho.

O Datafolha realizou, entre 7 e 15 de julho, 1.056 entrevistas, por telefone, com responsáveis por 1.556 estudantes de 6 a 18 anos de escolas municipais e estaduais do país, com uma amostra baseada no Censo de Educação 2019. A margem de erro é de 3 pontos percentuais, para mais ou para menos, e os resultados têm confiabilidade de 95%.

A falta de motivação, que em maio atingia 46%, chegou a 51% em julho. Os que enfrentam dificuldades para manter a rotina saltaram de 58% para 67%. O percentual dos que estão tristes começou a ser medido em junho, quando chegou a 36%, e passou para 41% em julho. No mesmo período, o de irritados foi de 45% para 48%. Somam 74% os que se sentem tristes, ansiosos ou irritados.

A parte cheia do copo, aponta Denis Mizne, diretor-executivo da Fundação Lemann, é que subiu o número dos que recebem atividades remotas das escolas, de 74% em maio para 82% em julho, durante a pandemia do novo coronavírus.

“No começo, achávamos que seriam dois ou três meses de isolamento, e a preocupação foi mobilizar os estados para criar sistemas de ensino a distância, o que foi bem sucedido. Com o confinamento prolongado, a saúde mental passou a nos chamar a atenção. A fadiga chegou e está cobrando a conta”, diz.

É o que aconteceu com Lucas, 10 (os nomes são fictícios). Aluno de um colégio público de São Paulo, ele teve dificuldades no início para acessar as aulas, pois dividia com o irmão de 14 e a irmã de 7 o celular da mãe, o único da família. Em maio, recebeu como doação um computador, e se conectou com mais facilidade às atividades. Mas, ao longo dos meses, a ansiedade cresceu e ele passou a ter crises de choro e falta de ar.

“Observamos crianças que antes não tinham nada e acabaram desenvolvendo problemas na pandemia. Outras possuíam questões escondidas, que estão saindo do armário. E há aquelas que já enfrentavam dificuldades e pioraram diante de tanta instabilidade”, diz a psiquiatra Lee Fu I, coordenadora do Ambulatório de Transtornos do Humor na Infância e Adolescência do Hospital das Clínicas.

Ainda que a pandemia imponha maiores dificuldades aos pacientes do serviço público, nos consultórios particulares também se sentem suas consequências. Um dos casos é o da garota de 12 anos que passou a falar de suicídio. Em psicoterapia desde antes da pandemia, sofria bullying na escola, mas vinha administrando as angústias.

Já fragilizada, contudo, no isolamento cortou a tela da janela de seu quarto, no 15º andar. Os pais ouviram da psiquiatra que, ainda que o ato pudesse ter o propósito chamar a atenção deles, ela estava em sofrimento e havia risco. Orientou-os a trocar a telinha de nylon por grades de ferro, e a garota passou a tomar antidepressivo.

Com um confinamento que soa sem fim, crianças e adolescentes tiveram que lidar com outras complicações da pandemia além do isolamento forçado. Há aqueles que enfrentaram situações mais traumáticas, como a perda de renda dos pais, a complicação da doença em alguém próximo ou o luto.

Mas todos, até os que tiveram a sorte de não passar por algo assim, têm sido submetidos aos seguidos prolongamentos do tempo de privações. E tem hora que falta fôlego, o que Lee Fu I ilustra com outra metáfora: “Há crianças que pulam uma onda, depois outra e outra. Vão bem, até que derrapam no último mês do isolamento”.

Luísa, 14, tem sofrido consequências variadas do estresse nestes meses. Ela passava o dia na escola, entre aulas, curso extras ou mesmo tardes de bate papo com amigos. No início do confinamento, desenvolveu irritação na pele. Depois, dor de estômago. Exames nada encontraram, o que levou o médico a constatar que era emocional. Com o tempo, ela se trancou no quarto, acumulou notas vermelhas e ficou agressiva.

“Um dia tive medo de ela pegar uma faca e vir para cima de mim”, conta a mãe.

Filha única, só sai de casa para ir ao apartamento dos tios. Apavorada com a possibilidade de ser contaminada, sobe os cinco andares de escada. Não quer encontrar amigos nem no parque e diz que só volta às aulas quando houver vacina.

Lee Fu I alerta que essa fobia social e uma mania de limpeza que beira o TOC (transtorno obsessivo compulsivo) têm sido observados em crianças e jovens, o que hoje pode não parecer um problema, porque estão em casa. Mas na retomada, pode complicar.

“Ainda veremos o que será a volta às escolas. Pode ser que tudo isso seja passageiro ou que se instale como um quadro”, diz. “Se essa vivência causará traumas ou estresse pós-traumático, saberemos depois. Vai depender muito do ambiente ao redor das crianças e dos jovens, da postura e do acolhimento dos adultos.”

O pediatra e psicólogo Eduardo Goldenstein, do departamento de saúde mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo, acredita que crianças que estejam passando pelo confinamento dentro da normalidade possível não terão traumas.

“Claro que estão atordoadas e com saudades dos amigos, o que traz tristeza”, afirma. “Mas depressão é algo mais profundo, não acontece com todas. Elas regridem, sentem medo, mas, em geral, têm uma forte resiliência e capacidade de se recompor.”

Os jovens, além das frustrações, estão com os hormônios à flor da pele.

“Pacientes reclamam de não poder encontrar o namorado ou a namorada, dizendo: ‘Tio, eu queria namorar, queria transar’”, conta. Mas a experiência deve levá-los a amadurecer e a refletir sobre a vida.

“Adolescentes se ressentem de que as coisas não são exatamente como querem, o que é uma novidade, e ficam bravos. É um enorme aprendizado”, diz o psicólogo, que ressalta: “Claro que estou falando de uma classe privilegiada, porque os mais pobres não têm direito nem à adolescência, precisam trabalhar, situação que se agravou na pandemia.”

É importante que se converse em família, diz, e que, guardados os devidos cuidados, as crianças e os adolescentes voltem a dar umas voltas.

“Os pais vão ao mercado, saem para resolver as coisas, e os filhos ficam sempre em casa. Eles precisam começar a ver gente, ter noção de que a vida, apesar de diferente, continua”, diz Goldenstein.

. E tem hora que falta fôlego, o que Lee Fu I ilustra com outra metáfora: “Há crianças que pulam uma onda, depois outra e outra. Vão bem, até que derrapam no último mês do isolamento”.

“Claro que estão atordoadas e com saudades dos amigos, o que traz tristeza”, afirma. “Mas depressão é algo mais profundo, não acontece com todas. Elas regridem, sentem medo, mas, em geral, têm uma forte resiliência e capacidade de se recompor.”

Os jovens, além das frustrações, estão com os hormônios à flor da pele.

Observamos crianças que antes não tinham nada e acabaram desenvolvendo problemas na pandemia.

Outras possuíam questões escondidas, que estão saindo do armário. E há aquelas que já enfrentavam dificuldades e pioraram diante de tanta instabilidade”, diz a psiquiatra Lee Fu I, coordenadora do Ambulatório de Transtornos do Humor na Infância e Adolescência do Hospital das Clínicas.

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